Bambalelê

por Biancamaria Binazzi

Bambalelê é onomatopéia equilibrista. No livro Chants Populaires du Brésil, Elsie Houston traduziu o título da embolada pernambucana para o leitor francês como “onomatopéia proveniente do motivo – bamba – indicando falta de estabilidade”. Elsie define embolada (em francês rouleés en boule) como um gênero típico do “Norte”, especialmente de Pernambuco, que usa sobretudo onomatopéias, sincopas de paradas bruscas e intervalos reduzidos (Houston-Perét, 1930 p.21).

Com harmonização de Luciano Gallet, “Bambalelê” estreou na voz Elsie em 1926 no Cassino Teatro do Rio de Janeiro e foi gravada por ela em 1941 nos Estados Unidos com acompanhamento de Pablo Miguel (Victor 13.669). Esse tema  já tinha sido gravado com outros versos pela pernambucana Stefana de Macedo, em 1929, como um samba-choro (Columbia 5.067), e pela paulistana Helena Magalhães Castro, como o coco “A volta do bambalelê”, em 1930 (Victor 33.341). Também temos notícias de uma versão de Marcelo Tupinambá gravada em disco mecânico em 1925 por Fernando e Coro  (Odeon 122.817) até hoje desaparecida. Carmen Miranda também entrou no bamboleio e, em 1941, gravou “Bambalê” assinado por Francisco Eugênio Brant Horta (Decca 23.210). Em 1958 Clara Petraglia também gravou o Bambalelê com os mesmos versos usados na versão da Helena Magalhães, em que a música acontece em uma usina de cana-de-açúcar. Em 1953, Manezinho de Araújo cita os versos “oia o coco do bambalelê” na gravação da “Mulher Barbada/Coco do Bamba Le Lê”.

 

 

Elsie teria aprendido a embolada com o poeta pernambucano Olegário Mariano, que escrevia para o jornal Correio da Manhã com o pseudônimo João da Avenida. Enquanto a indústria fonográfica espalhava as voltas do bambalelê em infinitas versões e estilizações, Olegário escutava em Recife “óia as vorta do bambalelê” pela Preta Maria Joana*, “famosa cantadeira do sertão”.  Ao comentar a explosão de estilizações de música folclórica por cantoras da época, o cronista notava que apenas Joana cantava com “verdadeiro sentimento nordestino”. Mário de Andrade também conheceu Maria Joana em Olinda, em  1928, e sobre a “filha de africanos legítimos” escreveu na sua coluna “O Turista Aprendiz” para o Diário Nacional (11.12.1928): “ritmo prodigioso, inconcebível, voz de metal, com cor de prata polida, nítida feito alfinete, formidável de encanto”.  Mário de Andrade conta que Joana trabalhava no engenho de açúcar de Renato Carneiro da Cunha em Recife, e pode escutar ela cantar ao vivo em duas situações bastante diferentes.*

“Preta pernambucana, moça ainda, seus 28 anos. Extraordinária voz metálica duma prodigiosa firmeza no som e no ritmo. Agudíssima. Inflexibilidade ritmica maravilhosa…Pude escutá la-la duas vezes… Deu então com nitidez o quarto-de-tom que assinalei no “Saia do Sereno”e fez os pios do “Aracuã”com virtuosidade miraculosa e espírito… filha ainda de africanos legítimos, voz de metal, cor de prata polida, nítida feito alfinete, formidável de encanto…Na segunda vez, cantando em frente dos patrões no engenho … foi quase ruim, envergonhada, hesitante, fugindo às dificuldades de técnica vocal, piando e vaiano mal no “Aracuã”, substituindo o quarto de tom do “Saia do Sereno” por um fá medíocre…” (ANDRADE, Mário de. Oneyda Alvarenga (org).  Os Cocos. Duas Cidades/ Pró Memória. São Paulo, 1984. p.40.)*.

* agradecimento especial para Marcele Marques e Rodrigo Caçapa pelas contribuições na pesquisa sobre Maria Joanna.

Ouça o Podcast sobre o Bambalelê que produzimos em 2018 em parceria com a Rádio Batuta, do Instituto Moreira Salles.

ftp://[email protected]:2500/public_html/

“Bambalelê” por Stefana de Macedo, 1929 (Columbia 5.067)

Stefana de Macedo
Bambalelê, 1929
Stefana de MacedoBambalelê, 1929

 

“A volta do Bambalelê” por Helena Magalhães Castro, 1930 (Victor 33.341)

Helena Magalhães Castro
A Volta do Bambalelê, 1930
Helena Magalhães CastroA Volta do Bambalelê, 1930

 

“Bambalê” por Carmen Miranda, 1941 (Decca 23.210)

Carmen Miranda
Bambalê, 1941
Carmen MirandaBambalê, 1941

 

“Bambalelê” por Clara Petraglia, 1958, Canções Populares por Clara Petraglia

Clara Petraglia
Bambalelê, 1958
Clara PetragliaBambalelê, 1958

 

 

Elsie Houston grava “Bambalelê” nos Estados Unidos em 1941 com acompanhamento ao piano de Pablo Miguel (Victor 13.669).

 

 

Lívia Mattos grava “Bambalelê” (Goma-Laca: Cantos Populares do Brasil de Elsie Houston)

 

Na versão de “Goma-Laca: Cantos Populares do Brasil de Elsie Houston” (2019), Lívia Mattos resfolega equilibrista, costurando as versões de Elsie, da Preta Joana, de Stefana e de Helena Magalhães fazendo dançar valsa, polca ou tudo que queira.

 

 

Bambalelê
Gravação ao vivo de show no SESC Pinheiros (13.07.2019)

Video: Eugênio Vieira e Pedro Palhares

Lívia Mattos – voz e sanfona
Alessandra Leão – voz e triângulo
Filipe Massumi – violoncelo
Rodrigo Caçapa – zabumba
Junior Kaboclo – caxixi

Disco Goma-Laca Cantos Populares do Brasil de Elsie Houston
Direção Geral: Biancamaria Binazzi e Ronaldo Evangelista
Produção Executiva: Ana Lima e Pamela Gopi

Luz: Silvestre Garcia

Som: Lila Stipp

 

Lívia Mattos Voz e Sanfona | Rodrigo Caçapa Zabumba | Alessandra Leão Triângulo, ganzá e vocais | Filipe Massumi Violoncelo.

 

 

Podcast  produzido em parceria com a Rádio Batuta, do Instituto Moreira Salles, em 2018: